Contrariando as leis da física, ela podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Aprendeu a se desligar do mundo ligando o som. Aprendeu que podia viajar para onde quisesse sem sequer sair do lugar. Esquecia-se do mundo enquanto por ele estava sendo esquecida. Construiu um mundo só seu, o qual visitava com frequência. Sempre que queria escapar do trânsito, do caos, do barulho ensurdecedor que atordoava os pensamentos. Era sua companhia mais constante. Era sua fuga do mundo real. Era sua máquina do tempo portátil. Era paz movida à bateria. Era música para seus ouvidos.
Menina Paradoxo
"Eu vou me acumulando, me acumulando, me acumulando - até que não caibo em mim e estouro em palavras." Clarice Lispector
quinta-feira, 10 de maio de 2012
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Farsa
Sou silêncio onde sobram palavras.
Sou uma maquiagem bonita em cima de cicatrizes profundas.
Eu sou máscara de riso em cima de cacos de um coração partido.
Sou mulher com ares de menina.
Sou dor que teima em ser amor.
Sou riso que disfarça o pranto.
Sou tanto que nem sei o quanto.
...
Sou uma maquiagem bonita em cima de cicatrizes profundas.
Eu sou máscara de riso em cima de cacos de um coração partido.
Sou a que faz parecer fácil quando difícil.
Sou a que acredita, mesmo duvidando.
Sou a que abraça mesmo quando precisa de colo.
Sou a que diz 'vai se quiser' desejando que fique.
Sou a que acredita, mesmo duvidando.
Sou a que abraça mesmo quando precisa de colo.
Sou a que diz 'vai se quiser' desejando que fique.
Sou gestos que mentem e olhos que entregam.
Sou remédio que envenena.
Sou remédio que envenena.
Sou mulher com ares de menina.
Sou dor que teima em ser amor.
Sou riso que disfarça o pranto.
Sou tanto que nem sei o quanto.
...
Temo que sou uma farsa.
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trilha sonora: 'farsa' de zeca baleiro na voz de nila branco
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trilha sonora: 'farsa' de zeca baleiro na voz de nila branco
terça-feira, 1 de maio de 2012
De noite na cama
Deve existir alguma lei universal que diz que a inspiração virá te visitar justamente quando você desligar o computador, guardar todos os cadernos e, lógico, apagar todas as luzes. Ela virar fazer você rolar na cama e vai perturbar teu sono. É quando você estiver perfeitamente acomodado no travesseiro e pronto pra sonhar que ela te acordará e te mostrará as palavras perfeitas, a rima rica, os argumentos irrefutáveis, as conclusões brilhantes. Não, não durante o dia. Não enquanto você espera. Não enquanto você procura. Não quando tiveres tempo livre na agenda. Ela virá nas horas inconvenientes. Não virá insistindo em apressar as coisas, forçando um parto prematuro, pois é como fruta que precisa amadurecer no pé. Idéias precisam de tempo e terreno fértil. Inspiração é feita da mesma matéria que o amor. Brota do mesmo terreno dos sonhos. De noite, na cama. Até você aprender que os melhores sonhos acontecem antes de dormir.
"Agora de noite, na cama, eu fico pensando....
...se você me ama, e quando."*
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*trecho de 'de noite na cama' de caetano veloso
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Impessoal *
Meu caso de amor com as palavras começou desde muito cedo. Passei a enxergar nelas a possibilidade de me comunicar com o mundo, declarar meus sentimentos, usar minha criatividade, ter uma identidade. Lembro da primeira vez que escrevi o meu nome – era eu, ali, identificada no papel. Lembro dos primeiros cartões que emocionavam meus pais e amigos, mesmo contendo apenas poucas palavras ainda rabiscadas...
Pra quem sempre gostou de ouvir historias, não era difícil gostar de contá-las, escrevê-las. E o que começou com a básica narrativa, foi progredindo para formas mais complexas.
Durante anos e anos no colégio, somos apresentados à literatura e aos seus vários conceitos, estilos e funções. Fábulas, crônicas, contos... Assonâncias, aliterações, antíteses, metáforas... Conotações... Verso e prosa.. Rima e métrica. E a cada novidade que eu aprendia, mais eu me empolgava.
Minha primeira paixão foram os poemas. As rimas vinham fáceis. Nas noites sem sono, tudo virava inspiração: estrelas, saudades, amigos, livros... Mas, por algum motivo, me afastei da poesia; parei de escrever.
Na preparação pro vestibular, o que passa exigir nosso empenho e atenção são as redações. Precisamos seguir os padrões. Estruturação do tema, ter coesão e coerência, argumentar e sempre concluir brilhantemente, sem ultrapassar as 25 a 30 linhas. E o mais importante: aprender a fazer tudo isso de maneira impessoal, mesmo quando se defende o próprio ponto de vista.
Eu nunca compreendi muito bem como se podia estabelecer um numero de linhas se cada um tinha um tamanho de letra diferente. E, enquanto alguns colegas sofriam pra atingir a cota mínima, eu facilmente ultrapassava o limite delas; e sempre acaba fazendo contorcionismos pra tudo caber ali.
Páginas e páginas aprendendo a ser impessoal – usar apenas terceira pessoa ou no máximo a segunda pessoa do plural – o ‘eu’ não existe. Exige treino, esforço, controlar as palavras pra manter o tom jornalístico, fático.
A minha professora me dizia pra evitar os períodos longos... cheios de apostos [eternos parênteses dentro de parênteses...]. Às vezes eu não entendia porque, se me parecia que era necessário muito mais domínio para escrever frases bem elaboradas e ricas que curtos períodos. Comecei a aprender o poder das frases curtas – declarações diretas, mas, não menos belas.
Aprender a escrever sem ser identificado. Usar do masculino e nada de pronomes muito pessoais. Cheguei a perder ponto em uma redação porque usei o pronome “você” na conclusão de uma forma que a professora disse sugerir “tentativa de comunicação com o leitor” – que seria o corretor da prova, portanto, algo proibido no vestibular.
Aprendi a dominar a arte da redação. Mas algo me fazia falta.
Num ambiente onde eu me sentia reprimida, de repente os diálogos ficaram complicados. Não podia demonstrar algumas emoções. Não podia simplesmente chorar. Era difícil me expressar. Quase proibida de sentir. Percebi que haviam muitos sentimentos dentro de mim e que eles precisavam sair. Eu precisava me expor. Precisava me sentir reconhecida nas minhas palavras. Precisava registrar meus pensamentos. Precisava não me limitar. Precisava ser vista como indivíduo. Deixar subentendido não era suficiente. Senti falta de escrever. Me gritar, ainda que ninguém fosse ouvir. No papel eu podia ser eu; escrevia pra mim; meu diário de bordo.
Fugi das formas fixas e, por hora, abandonei a rima e a métrica, que às vezes me limitavam e nem sempre me deixavam dizer tudo que eu queria. [Admiro àqueles que dominam o desafio das formas fixas e conseguem dizer tanto em poucas linhas!] Me entreguei à prosa. Conscientemente tive que reaprender a ser EU. Abandonar o sujeito indeterminado e indefinido. Deixar de usar tudo no masculino. Esse último ponto foi especialmente difícil [e até hoje é] porque costumo dizer que meu eu-lírico é masculino; transcreve sentimentos humanos, que não se restringem a gênero.
Aos poucos, reaprendi a falar de mim e a, sem culpa, falar de nós. A conversar comigo e com quem lê [assim como fazia o escritor do meu livro de Historia que sempre fazia parecer que ele nos via, que imaginava o que passava pela cabeça do “amigo leitor”]. Me conto e gosto de ser pessoa, ser social, interagindo, despertando emoções, reflexões, atingindo o outro, ainda que nem sempre escreva pra um alguém com rosto. Às vezes fantasias, e eu sou personagens de historias que nem vivi, escrevo sobre sentimentos que eu mesma desperto em mim. Invento contos e crônicas. Escrevo pra mim. Escrevo pra aliviar. Escrevo pra esquecer. E é sempre pessoal, porque sou sempre eu, no que penso, no que temo, no que sinto ou imagino. E sempre que uso o “você” é pra realmente me comunicar com quem está lendo, pra estar mais perto, pra ser sempre pessoal, pra tocar, pra fazer sentir.
Voltei até mesmo a escrever poesias, muitas vezes sem rima ou métrica, apenas deixando levar pelo sentimento, pelo som, pelo ritmo. [Ah! Maravilha da poesia moderna, de textos quase concretos, tão próxima da música.] E passei a me sentir orgulhosa de mim, não por ser bom, mas por ser eu, até a última gota de tinta.
É com orgulho que hoje escrevo – com desinência verbal de primeira pessoa do singular. É uma conquista, um crescimento, um aprendizado. Talvez por isso me permito ser lida, comentada, criticada. E digo: me peça tudo, menos pra ser impessoal.
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Texto originalmente postado em Meu Lugar em 01/11/09
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Momento (Fragilidade) *
Era aquele momento, como um quadro em movimento.
Ela ali, diante dele. E pouco importava que ela não estivesse no seu vestido mais belo. Aquela camiseta fazia-lhe tão linda. Nos seus braços ele a tinha. Mas desejava antes cuidá-la que possuí-la.
Passou-lhe a mão pelos cabelos ainda molhados, até a nuca. Acariciou seu rosto, secando-lhe as lagrimas que ainda desciam. Sentiu seu semblante serenar. Tudo que podia e queria era beijá-la. Beijou-a com um beijo suave, que se tornou intenso.
Seus lábios ainda trêmulos... avermelhados... ainda salgados das lagrimas que corriam pela sua face... daqueles olhos... Os olhos mais bonitos que já vira. Tão profundos... apaixonados, confusos, sedentos...
Ela era sua. Estava em seus braços. Indefesa. Entregue. Deixava-se beijar.
Enquanto as mãos dele nas costas dela pressionavam-na contra seu corpo, seu peito... Ele sentia-a em si... sustentava-a como se estivesse prestes a cair, despedaçar-se enquanto se deixava pesar... frágil.
Ela se sentiu segura. Amada. Mulher.
Nos dele braços sentia-se tão confortável. Parecia-lhe o seu lugar. Onde sabia se encaixar e cabia perfeitamente.
Queria que aquele momento durasse para sempre.
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Originalmente postado em "Meu Lugar" - meu antigo blog - em 03/04/09
ps: Feliz Dia do Beijo! #beijomeliga ;]
quinta-feira, 22 de março de 2012
Ato de Significação [2]
Do you know?
.De alegria.De emoção.De nervoso.Pra contagiar.Pra apaixonar.
.Mesmo na dor. O importante é sorrir! #sempalavras
segunda-feira, 12 de março de 2012
Coração
Aquele lugar parecia abandonado há um bom tempo. Objetos cobertos, cantos empoeirados, janelas fechadas que só deixavam entrar pequenas frestas de luz por entre rachaduras. Não pediu permissão. Apenas entrou. Achou que seria notada logo de cara, pois o rangido da porta, que há muito não se abria, chamaria atenção mesmo dos desatentos. Mas não foi.
Achou interessante tudo ali. A princípio parecia apertado, mas até que era bem espaçoso. Forçou um pouco e com jeito conseguiu destravar as janelas. Que mudança! Milagres acontecem quando se deixa a luz entrar. Uma boa faxina era o que precisava para colocar cada coisa em seu lugar.
Sem pressa começou a espanar a poeira dos móveis e recolher 'os tais caquinhos' espalhados pelo chão. A arrumação dá trabalho, mas vale o resultado. Pintura nova nas paredes e aos poucos foi redecorando o lugar. Cada dia levava uma novidade e inevitavelmente foi colocando ali um pouco de si. Da sua vida, da sua cor, do seu riso.
Quando se deu conta, daquele lugar, antes abandonado e empoeirado, fez um lugar confortável. Tornou-o um lar. Não tinha como negar, aquele coração havia voltado a pulsar.
Esquece as placas. Aqui agora já é meu lugar.
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Por algum motivo, as imagens desse clipe vieram a minha cabeça enquanto eu escrevia esse texto. Quanto à imagem, créditos ao Flávio no Life on a Draw, onde tem muito desenho legal #ficadicaterça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Questionamentos
Qual o problema de querer ter tudo?
Por que sempre tem que se abrir
mão de algo? Por que não ter tudo?
Por que não fazer tudo?
Por que sempre tem que se abrir
mão de algo? Por que não ter tudo?
Por que não fazer tudo?
Por que não o doce e o salgado?
O amigo e o namorado?
O dourado e o prateado?
O liso e o estampado?
Por que não o cinema e o teatro?
O scarpin e o sapato baixo?
Por que as pessoas desistem?
Que instinto de sobrevivência é esse? Que defesa?
Medo de sofrer? De criar expectativas e se frustrar?
Abrir mão pra não perder?
O que vale mais a pena?
A intensidade da ilusão ou tristeza da realidade?
O riso de uma mentira ou a lagrima de uma verdade?
Talvez muitas desas perguntas eu não saiba responder...
Eu me faço a maioria delas constantemente...
Mas, pelo menos hoje, eu quero que baste dizer isso: não sei!
A fase do ‘não sei’ traz uma certa impaciência,
uma vontade de não dar explicações...

"Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar [...]
Mas hoje não dá
Hoje não dá
Vou consertar a minha
asa quebrada
E descansar [...]
Quero voar pra bem longe
mas hoje não dá [..]
Só nos sobrou do amor
A falta que ficou"
[Os Anjos – Legião Urbana]
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Vanilla Sky
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É impressionante como um segundo é tudo que é necessário para você ver todo o seu mundo mudar. Num instante tudo parece estar bem, tudo em seu lugar, mas, de repente, tudo desaba ao seu redor e você não tem nem tempo de entender o que está acontecendo. Já se sentiu assim?
Às vezes é tão rápido, que você só percebe a dimensão do que aconteceu tempos depois. Aí você fica repassando a história na mente e tentando lembrar onde foi exatamente que tudo mudou. Outras vezes você sabe exatamente o que foi o estopim da bomba, e tudo que deseja é voltar ao segundo anterior ao estrago, quando ainda podia sentir-se bem.
Ainda consegue lembrar como é a sensação? Sentir-se bem. Sentir-se em paz. Sentir-se leve. Eu lembro. E sinto saudade dessa sensação que me parece tão distante e até irreal. Sentimentos bons que me fazem sentir saudade de um tempo que não voltará, por mais que eu deseje com todas as minhas forças. Saudades de um tempo bom, não perfeito, mas feliz.
Porque algo tão bom pode às vezes doer tanto? Porque é a triste boa lembrança de que você não é mais o mesmo, as coisas não são as mesmas e que você é totalmente impotente em mudar isso. É quando você percebe tudo aquilo que já não é, por comparar com tudo aquilo que você já foi. É a hora que tristemente você enxerga claramente tudo aquilo que você perdeu.
É, eu sei... esse não é o melhor modo de enxergar as coisas. E parece apenas perda de tempo desejar voltar no tempo ou pensar em como seria se as coisas tivessem sido diferentes. Meu realismo sempre me acorda dos sonhos, e, quando eles acontecem, são sempre lúcidos demais para que eu acredite que é de verdade esse céu de baunilha.
Ainda prefiro os sentimentos reais aos sonhos de mentira. Ainda prefiro sentir. Anestesias não são legais e podem acabar virando pesadelos.
Sempre que eu penso em mudar o antes, eu penso em tudo que mudaria no depois. Em quem eu perderia. E se valeria mesmo perder quem só entrou na minha vida depois que tudo mudou. Destino? Não acredito nisso. Acredito em consequências, escolhas, encontros, desencontros, na teoria do caos. Acredito em quem escolhe fazer parte, estar presente. Acredito em abraços, em beijos, em olhos cúmplices, em palavras e lágrimas. Duvido de alguns risos, dos tapas nas costas, das coisas não ditas.
Eu sofro por quem, não simplesmente passou, mas por quem esteve e já não está mais. Por quem levou mais um pedaço de mim e não fez questão de deixar algo bom em troca. Por quem hoje me faz sofrer exatamente por sentir falta do bem que já me fez. Por ter me feito saber o quanto a realidade pode ser boa, mesmo que não seja um sonho. Esses que me fazem querer voltar no tempo mesmo que eu tivesse que apagar bons momentos.
Mas eu não posso voltar no tempo. Eu não posso mudar o passado. Tudo que me resta é esse futuro, agora. É ele que eu vivo, enquanto sobrevivo. Eu vivo por quem ficou. Eu vivo por amor. E a vida segue assim, esse eterno recomeço.
Mas, fala sério, você já teve vontade de voltar no tempo?!
"Every passing minute is another chance to turn it all around"
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
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